JubilÉu do Bom Jesus

ROMARIA DO SENHOR BOM JESUS DE MATOSINHOS DE PORTUGAL

Do livro: Bairro de Matosinhos, berço da cidade de São João del Rei*

Festa religiosa oficialmente criada em 3 de Maio de 1733, pelos fiéis católicos. Esta romaria tem como objetivo o culto e devoção à Imagem do Bom Jesus - Senhor de Matosinhos

A imagem foi esculpida pelo escultor Nicodemos, o bom fariseu convertido a discípulo de Jesus. Nicodemos esculpiu várias imagens de Cristo em 5 madeiros da Judeia. Quando perseguido por judeus e romanos, Nicodemos lançou ao mar as 5 imagens. Hoje essas imagens são adoradas em Matosinhos (Portugal), Berio (Síria), Luca (Itália), Burgos (Espanha) e Orense (Galiza/Espanha). Velhas histórias relatam que a imagem do Senhor de Matosinhos apareceu na Praia do Espinheiro (Matosinhos) em 3 de Maio de 1242 - o local ficou assinalado com o Senhor do Padrão. A imagem, no entanto apareceu na praia sem um braço e apesar de várias tentativas para a corrigir nada foi conseguido. Anos mais tarde uma pobre mulher de pescador encontrou o braço em falta. Após isto, contam-se várias lendas e histórias de curas milagrosas que com o tempo deram à imagem fama primeiro em Matosinhos, depois Porto e progressivamente o norte de Portugal, Portugal continental e províncias ultramarinas. A cidade do Porto em especial pediu por várias vezes a imagem por causa de cheias e doenças. A Imagem estava numa primeira fase instalada no mosteiro de Bouças (Matosinhos estava integrado em Bouças antigamente), mas com o declínio deste local, foi transferida para Matosinhos.

"Ao nível das mentalidades, a crescente cristianização das massas, associada à longínqua lenda do aparecimento de uma escultura de Cristo no lugar do Espinheiro (local hoje assinalado com um padrão), cedo transformou Matosinhos em importante centro de religiosidade popular para veneração daquela imagem. Mas, também, em local onde o sagrado se interpenetrou fortemente com o profano, transformando a romaria ao Senhor de Matosinhos, numa das mais concorridas e festivas do Entre-Douro-e-Minho. Inicialmente depositada no Mosteiro de Bouças, a imagem foi transferida no século XVI para a igreja de Matosinhos."

Com o passar dos tempos, este evento passou a ser principalmente uma festa popular em vez de uma romaria religiosa fazendo cair um pouco no esquecimento as raízes. No entanto foi recentemente criada uma comissão de festas com o intuito de recuperar algumas dessas raízes sem acabar com a animação associada a esta festa matosinhense. A romaria passa no fundo a ter duas vertentes distintas: a religiosa e a popular.

A vertente popular da festa realiza-se como habitualmente junto ao porto de mar ao fundo da Avenida D. Afonso Henriques, Luna Parque e pelo Parque da Cidade

A vertente religiosa inclui procissões e missas. A Igreja de Matosinhos, recentemente recuperada terá aspecto primodial nestas celebrações. A Igreja erigida no século XVI e remodelada no século XVIII (por Nicolau Casoni) constitui uma obra notável de estilo barroco joanino. A imagem do Senhor de Matosinhos encontra-se aqui em exposição

De notar que existem muitos eventos paralelos associados à romaria do Senhor de Matosinhos que passam não só pela animação popular e atividades religiosas, mas também pela cultura e desporto por exemplo

A DEVOÇÃO NO BRASIL
Falcão, em a "A Basílica do Senhor Bom Jesus de Congonhas do Campo", Brasiliência Documenta, comenta:"Deslocaram-se de Portugal, rumo ao Brasil, por todo século XVIII, imigrantes com olhos nos garimpos de ouro das Minas Gerais. Ao surgirem maiores dificuldades no caminho de cada um deles, lembravam-se todos da proteção divina e formulavam promessas para alcançar a graça desejada. Por tal forma, implantou-se entre as alterosas montanhas da Serra do Espinhaço e adjacências, ardente culto ao Bom Jesus de Matosinhos, glorioso patrono, sobretudo, das populações setentrionais da metrópole lusa. Remanescentes daquele distante tempo, erguem-se, em diferentes pontos do atual estado de Minas Gerais, sete igrejas que têm como orago o antiquíssimo Senhor de Bouças. Além da capela situada no Alto das Cabeças, em Ouro Preto, a qual tem por titulares, os Santíssimos Corações de Jesus, Maria e José, São Miguel e Almas, e o Bom Jesus de Matosinhos, e se instalou por provisão de 12 de Agosto de 1771, a pedido de Manoel de Jesus Toste"

Por ordem cronológica das licenças eclesiásticas, que permitiram ou sancionaram as respectivas fundações, assim se distribuem os templos atrás mencionados, segundo os respectivos dados fornecidos pelo Cônego Trindade:

1º) Santuário em Congonhas do Campo (MG), ereto no Alto do Maranhão, por solicitação de Feliciano Mendes, provisão episcopal de 21/06/1757

2º) Capela em Lavras do Funil, (MG), provisão de 23/08/1768

3º) Santuário em Conceição do Mato dentro (MG), ereto no antigo povoado do mesmo nome, situado no Distrito Diamantino de Serro Frio, mediante provisão de 21/04/1770

4º) Capela em São Miguel do Piracicaba (SP), "no Arraial do Morro", a pedido de Luís Pereira da Silva. Provisão de bênção de 8 de Junho de 1771. A bênção da imagem do Bom Jesus se realizou a 29 de Junho do mesmo ano

5º) Capela na Vila do Príncipe (atual cidade do Serro), Minas Gerais, "na paragem chamada Lagoa de Matosinhos", tendo sido seu fundador o Ten. José Ferreira de Vila Nova Ivo, em 1781

6º) Capela em São João del Rei, "na Vargem do Porto", atualmente Bairro de Matosinhos, cidade de São João del Rei. Patrimônio doado pelo Padre Dr. Matais Antônio Salgado em 14 de Maio de 1773. Construção autorizada por provisão de 6 de Setembro de 1771

7º) Capela filial de Roça Grande, fundada por Inácio Pires de Miranda mediante provisão de 30 de Maio de 1823, instituída canonicamente em 8 de Outubro do mesmo ano. Hoje, cidade de Matosinhos (MG)

No Brasil, centros de intensa devoção popular, graças aos prodígios atribuídos ao Divino Redentor, neles venerado, e propagados de boca em boca até às mais apartadas zonas, tais santuários tiveram desenvolvimento bastante expressivo na segunda metade do século XVIII. Dois deles, o de Congonhas do Campo e o de Conceição do Mato Dentro, chegaram a alcançar elevados favores espirituais, outorgados com algum tempo de intervalo pelo mesmo Pontífice, Sua Santidade Pio VI, e traduzidos por imensa série de indulgências lucradas pelos fiéis que os visitarem em determinados dias do ano. Essa a origem dos chamados jubileus, romarias fervorosas que se vêm encaminhando, secularmente, em direção aos mesmos, durante períodos variáveis de 8 a 10 dias consecutivos, nos meses de maio, junho e setembro

Conceição do Mato Dentro viu nascer em seu seio, na primeira metade setecentista, particular devoção ao Crucificado, de acordo com tradição recolhida por Geraldo Dutra de Morais em valioso documentário histórico. Hei-la como descreve o cronista: "Certo dia, quando o negro Antônio Angola, forte e valente escravo do rico sesmeiro Manuel de San Tiago Franco, regressava das lavras auríferas, embrenhou-se em um denso capão situado no morro a cavaleiro do distrito, no intuito de arrebanhar alguma lenha para o quotidiano consumo da senzala. Qual não foi, porém, o seu espanto quando encontrou, envolvidas em farrapo, uma pequena imagem do Cristo Crucificado, uma perfeição em trabalho de talha: A notícia do precioso achado correu célebre e, em breve, sob os auspícios do Capitão San Tiago, foi construído no alto do outeiro, bem nas proximidades do capão, um belo oratório de cedro, com o retábulo magnificamente colorido, todo salpicado de ouro purpúreo, para onde foi levada, em procissão, a imagem do Senhor Bom Jesus de Matosinhos. O pároco, Dr. Manoel de Amorim Coelho, vigário da Freguesia, acompanhou solenemente o piedoso ato religioso, fazendo um sermão no momento da bênção da imagem, pelo qual explicou ao povo o milagre do aparecimento e pediu aos habitantes do lugar que se quotizassem em seus óbolos, em favor da construção de uma modesta ermida, mais condigna morada do Senhor Bom Jesus". A seguir, depois de referir-se a uma tremenda seca que assolou a região e foi debelada por intercessão da milagrosa imagem, trazida em procissão ao povoado, narra Dutra de Morais história parecida com a de Congonhas do Campo, para explicar a origem do santuário que se veio a erguer in loco. Um português, enriquecido nas minas de ouro, José Correia Porto, acometido de zamparina (doença estranha do sistema nervoso, complicada de perturbações motoras), apegou-se com o Bom Jesus de Matosinhos para curá-lo. Guarnecido da enfermidade, cumpriu o voto: mandou vir do Porto a imagem em tamanho natural e edificou no cimo do morro acolhedora ermida toda de taipa socada e forro de cabriúva, a dominar o arraial. Esta lenda, porém, não subsiste diante da prova documental descoberta pelo citado autor, mercê da qual coube a Dom Frei João da Cruz, 5º Bispo do Rio de Janeiro, por ocasião de sua visita pastoral a Conceição do Mato Dentro, em 16 de junho de 1743, recomendar ao vigário da freguesia, Padre Dr. Miguel de Carvalho Almeida Matos, "que construisse por conta de esmolas ou pelos cofres da fábrica da Matriz, uma ermida decente para tão milagrosa imagem", cuja bênção inaugural ocorre em 1750, por ordem de Dom Fr. Manuel da Cruz, 1º Bispo de Mariana, e na forma do ritual romano. Foi, contudo, pelas alturas de 1770, ao constituir-se a Irmandade ou Confraria do Bom Jesus de Matosinhos e após a imprescindível provisão eclesiástica, concedida nesse ano, que se levantou condigna igreja para abrigar a devoção. Data de 1773 a aquisição feita em Lisboa pelo Padre Luís Alves Gondim do esplêndido Crucificado ainda hoje exposto no Santuário. Elevou-se, então, na colina que sobrepujava a velha povoação, linda igreja barroca, em cuja feitura e ornamentação definitiva colaboraram grandes artistas da época; entre outros, o afamado pintor Manuel da Costa Ataíde. Esta jóia de arte colonial, infelizmente, já não existe. No ano de 1930, certo franciscano bem intencionado, mas desconhecedor do valor de nossas relíquias, pô-la abaixo para no seu lugar erguer inexpressivo templo vazado em extravagante estilo mourisco. Desgraçadamente ainda não havia sido organizada eficiente proteção aos monumentos históricos e artísticos nacionais, consumando-se, assim, placidamente, tamanha barbaridade. Solicitadas graças especiais para a devoção em causa, foram expedidos por S. S. Pio VI seis Breves, datados respectivamente de 6, 7, 8, 9, 23 e 26 de março de 1787, outorgando concessões extraordinárias a quantos visitarem o Santuário em determinadas oportunidades. E desde o ano de 1790, vêm-se realizando, impreterivelmente, do dia 14 ao dia 24 de Junho de cada ano, os festejos do Jubileu, durante os quais, com máximo respeito e ordem, os fiéis, sem distinção de classe, se prosternam ante o Senhor de Matosinhos, agradecendo os benefícios obtidos"

*O livro: Bairro de Matosinhos, berço da cidade de São João del Rei pode ser encontrado nas principais livraria de São João del Rei e Juiz de Fora, ou pelo (032) 3371-5342

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